Escola de Bicicleta

mobilidade & recreio

Fomos Há Volta!

Este ano fomos de novo gentilmente convidados pela RTP para irmos ao programa Há Volta (ver minuto 31:37), desta vez com foco exclusivo no nosso trabalho na Escola de Bicicleta da Cenas a Pedal, particularmente com pessoas que nos procuram para aprender ou reaprender a andar de bicicleta.

Pediram-nos para levar um aluno para representar quem não sabe – ou não sabia! – andar de bicicleta. Convidámos a Rita, que está a graduar-se agora do nosso Nível 1, e ela teve a generosidade de vir connosco desempenhar este papel, e dar o seu testemunho.

 

Escola de Bicicleta da Cenas a Pedal em entrevista à Catarina Machado no Há Volta da RTP

Cliquem para ver vídeo, peça começa ao minuto 31:37)

 

Até andou um pouco na minha bicicleta “para a fotografia”. Mas não a puseram a fazer nada das coisas mais avançadas que ela já faz nas aulas, foi muito no relax. 😀

 

Ainda nos cruzámos com o Miguel, que veio de bicicleta com a boleia da Fertagus, que um pouco depois interveio também, para falar do Bike Buddy, o programa de mentorado da MUBi para novos utilizadores de bicicleta na cidade (vejam o minuto 10:05 da Parte 2, sim, imediatamente a seguir àquele comentário despropositado, nem parece que o movimento #metoo existe, mas enfim, deve ser da exposição exagerada ao sol e ao calor que esteve nesta manhã).

 

Depois, houve também a participação de uma subcomissária da PSP que respondeu a algumas questões acerca do Código da Estrada (min 15 da Parte 3). Contudo, e muito infelizmente, foi uma intervenção muito enviesada (focada quase só no que os ciclistas não podem fazer, sem vincar o que podem fazer, e sem focar o que os automobilistas, os elementos que trazem a ameaça ao espaço público, devem fazer e o que não podem fazer, particularmente ao cruzarem-se com ciclistas) – basta atentar ao momento em que à pergunta da apresentadora “quais os erros mais comuns?”, depois da pergunta “e da parte dos condutores, claro que têm, temos que ter, naturalmente, cuidado, mas há regras também que têm que ser respeitadas?“, a subcomissária se focar nos erros dos ciclistas, e não dos automobilistas. Perdeu-se uma excelente oportunidade de educar melhor os condutores de automóvel e melhorar a segurança rodoviária.

Não é por mal, estamos todos formatados para vermos o mundo num “nós vs eles” e o nós dominante conduz ou anda de carro, pelo que é esse o ponto de referência das pessoas.

 

Bom, contudo, não gostaria de deixar de completar e corrigir pelo menos duas coisas ditas pela sub-comissária, porque são fundamentais.

Uma é a questão das rotundas. Ao contrário do que foi dito, ao conduzir uma bicicleta, circular pelas vias interiores das rotundas, e não pela via exterior, não é um erro nem uma infracção ao Código da Estrada. Os condutores de bicicleta, tal como os de veículos pesados, têm a opção, extra, facultativa, de fazer as rotundas todas por fora, mas não são a tal obrigados!! É mais perigoso e não deve ser feito de ânimo leve.

 

bicicletas nas rotundas

Um dos slides ilustrativos da circulação em rotundas, do Curso “Pedalar em Segurança Pela Cidade”.

 

Artigo 14-A

1 – Nas rotundas, o condutor deve adotar o seguinte comportamento:

a) Entrar na rotunda após ceder a passagem aos veículos que nela circulam, qualquer que seja a via por onde o façam;

b) Se pretender sair da rotunda na primeira via de saída, deve ocupar a via da direita;

c) Se pretender sair da rotunda por qualquer das outras vias de saída, só deve ocupar a via de trânsito mais à direita após passar a via de saída imediatamente anterior àquela por onde pretende sair, aproximando-se progressivamente desta e mudando de via depois de tomadas as devidas precauções;

d) Sem prejuízo do disposto nas alíneas anteriores, os condutores devem utilizar a via de trânsito mais conveniente ao seu destino.

2 – Os condutores […], de velocípedes e de automóveis pesados, podem ocupar a via de trânsito mais à direita, sem prejuízo do dever de facultar a saída aos condutores que circulem nos termos da alínea c) do n.º 1.

3 – Quem infringir o disposto nas alíneas b), c) e d) do n.º 1 e no n.º 2 é sancionado com coima de € 60 a € 300.

 

Quanto à ultrapassagem de pessoas em bicicletas, os condutores de automóvel, nomeadamente, devem fazer 3 coisas. Além de manterem pelo menos 1.5 m de distância – que a subcomissária referiu, devem ocupar (ou seja, passar totalmente para) a via adjacente à esquerda, como fariam com qualquer outro veículo (não interessa que as bicicletas sejam mais estreitas), e devem abrandar.

 

ultrapassagem de ciclistas

Um dos slides ilustrativos das manobras de ultrapassagem, do Curso “Pedalar em Segurança Pela Cidade”.

 

é preciso ocupar a via adjacente ao ultrapassar uma bicicleta

Um dos slides ilustrativos das manobras de ultrapassagem, do Curso “Pedalar em Segurança Pela Cidade”.

 

Artigo 11

3 – O condutor de um veículo não pode pôr em perigo os utilizadores vulneráveis.

4 – Quem infringir o disposto nos números anteriores é sancionado com coima de € 60 a € 300.

Artigo 38

1 – O condutor de veículo não deve iniciar a ultrapassagem sem se certificar de que a pode realizar sem perigo de colidir com veículo que transite no mesmo sentido ou em sentido contrário.

2 – O condutor deve, especialmente, certificar-se de que:

aa) A faixa de rodagem se encontra livre na extensão e largura necessárias à realização da manobra com segurança;

bb) Pode retomar a direita sem perigo para aqueles que aí transitam;

cc) Nenhum condutor que siga na mesma via ou na que se situa imediatamente à esquerda iniciou manobra para o ultrapassar;

dd) O condutor que o antecede na mesma via não assinalou a intenção de ultrapassar um terceiro veículo ou de contornar um obstáculo;

ee) Na ultrapassagem de velocípedes ou à passagem de peões que circulem ou se encontrem na berma, guarda a distância lateral mínima de 1,5 m e abranda a velocidade.

3 – Para a realização da manobra, o condutor deve ocupar o lado da faixa de rodagem destinado à circulação em sentido contrário ou, se existir mais que uma via de trânsito no mesmo sentido, a via de trânsito à esquerda daquela em que circula o veículo ultrapassado.

4 – O condutor deve retomar a direita logo que conclua a manobra e o possa fazer sem perigo.

5 – Quem infringir o disposto nos números anteriores é sancionado com coima de € 120 a € 600.

Artigo 145

1 – No exercício da condução, consideram-se graves as seguintes contraordenações:

ff) O desrespeito das regras e sinais relativos a distância entre veículos, (…), ultrapassagem, mudança de direção, (…)

 

Por favor não dependam só do que as autoridades vos vão dizendo acerca dos vossos direitos e deveres enquanto condutores de bicicleta, pois as forças policiais não têm formação especializada nisto, e dão frequentemente informações pouco claras, incompletas ou mesmo incorrectas. Consultem os decretos-lei, sim, mas não se fiquem por aí, pois o CE não ensina a conduzir.

Façam algo por vós próprios, inscrevam-se nos nossos cursos ou palestras! Ou pelo menos leiam umas coisas, vejam uns vídeos, (há tanta coisa boa na net!), munam-se de conhecimentos, reforcem competências. Dêem bons exemplos. Tenham viagens mais tranquilas. Mantenham-se mais seguros!

O que são as novas Zonas Avançadas para Bicicletas em Lisboa?

Estão a surgir em Lisboa locais com um novo tipo de marcação rodoviária dedicado às bicicletas. Aqui estão a chamar-lhes ZAB, Zonas Avançadas para Bicicletas, e pintam-nas de verde.  É algo já antigo e comum noutros países, já existem exemplos no Funchal desde 2015, mas só chega agora a Lisboa, num projecto da Urbactiv para a intervenção da Câmara Municipal de Lisboa no Eixo Central. Já as viram?

 

zonas avançadas para bicicletas

Foto: Urbactiv

 

Lá fora chamam-lhes Advanced Stop Line (ASL), ou seja “linha de paragem avançada”, “caixa de paragem avançada” ou simplesmente bike boxHá dois tipos comuns: a in-line bike box e a cross-street bike box:

Em Lisboa estão a implementar apenas as primeiras, pelo que nos focaremos aqui apenas nestas. (Infelizmente, pois há muitos locais onde as segundas seriam mais úteis.)

 

O que são as ZAB – Zonas Avançadas para Bicicletas?

As ZAB são zonas de paragem avançada para bicicletas e estão normalmente associadas a intersecções controladas por semáforos.

 

Intersecção normal ANTES da introdução de uma ZAB:

 

zonas avançadas para bicicletas

Foto: Google Maps.
A – linha de paragem obrigatória com o sinal vermelho
B – zona de passagem de peões
C – zona tampão de segurança

 

Intersecção DEPOIS da introdução de uma ZAB:

 

zonas avançadas para bicicletas

Foto: Pedro Nóbrega
A – linha de paragem obrigatória com o sinal vermelho
B – zona de passagem de peões
C – zona só para bicicletas

 

As Zonas Avançadas para Bicicletas foram inventadas para tentar minimizar os riscos acrescidos causados pela segregação de modos nas intersecções (face à normal segregação por destinos) não intermediada por ciclos de semaforização independentes, nomeadamente onde seja permitida a viragem à direita.

 

zonas avançadas para bicicletas

 

Esta segregação pode verificar-se pela existência de (má) infraestrutura (ciclovia à direita da via de trânsito geral mais à direita, como na ilustração anterior) ou pelo (mau) posicionamento dos condutores de bicicleta (ao circularem encostados à direita dividindo a via de trânsito com automóveis).

O uso seguro deste tipo de infraestrutura implica competências de Nível 3. Condutores de bicicleta com estas competências já fazem o essencial que esta infraestrutura visa facilitar mesmo onde ela não existe. As ZAB, simplesmente por existirem, não permitem que condutores inexperientes, ou experientes mas mal informados, as usem em segurança.

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Para que servem as Zonas Avançadas para Bicicletas?

 

A utilidade e funcionalidade das ZAB dependem:

  • do contexto em que se inserem: nº de vias, em que direções é possível virar a partir da rua em causa, se há ou não ciclovias de alimentação da ZAB ou espaço para ultrapassagem, do nível de congestionamento antes e depois do cruzamento, etc
  • da forma como cada condutor de bicicleta se posiciona na estrada ao aproximar-se do cruzamento e na própria ZAB, e qual a direcção que deseja tomar
  • e de quando o condutor da bicicleta chega à ZAB, se com o sinal verde, amarelo ou vermelho

 

Vantagens gerais das Zonas Avançadas para Bicicletas

 

  • Condicionamento (ou priming) psicológico dos outros utentes das vias públicas para a presença de bicicletas e seus utilizadores. Este condicionamento é mais benéfico [do que as ciclovias, e parques de estacionamento] enquanto tal porque:
    • 1) é mais eficaz porque os gráficos e cores e espaços da ZAB estão numa zona aos quais os condutores prestam naturalmente atenção porque a utilizam
    • 2) não ocorre à custa da segurança da infraestrutura para os seus utilizadores

 

zonas avançadas para bicicletas

Foto: Urbactiv

 

  • Mais segurança para os peões – maior zona tampão entre estes e os automóveis.
  • Mais conforto para os peões – menor exposição ao ruído e à poluição dos automóveis.
  • Mais conforto para os condutores de automóvel – se, durante o vermelho, as bicicletas filtrarem as filas de carros e se concentrarem todas na bike box, tornam-se um quase-pelotão. Isto torna-as mais fáceis de detectar pelos outros condutores, e de ultrapassar num só bloco quando uma oportunidade segura surgir.

 

Vantagens da ZAB para os condutores de bicicleta

 

Chegando lá com o sinal verde:

  • Nenhuma, não há diferença face a uma intersecção sem a ZAB.

 

Chegando lá com o sinal vermelho:

  • oferece um espaço de escapatória da poluição gerada pelos automóveis acumulados atrás (que é um dos problemas graves de Lisboa). As bicicletas não poluem o ar e os seus condutores e passageiros não devem sofrer desnecessariamente com a poluição causada por quem opta por se deslocar num veículo poluente.
  • Oferece um espaço amplo à frente dos carros onde parar facilmente depois de filtrar as filas de trânsito, e antes de retomar a marcha quando o sinal ficar verde.
    • Permite reduzir os tempos de deslocação. Os congestionamentos de trânsito em Lisboa ocorrem porque demasiadas pessoas optam pelo carro para se deslocarem. Mesmo quando viajam sozinhas ou com apenas um passageiro, e mesmo quando têm outras alternativas viáveis. Quem opta por meios mais sustentáveis não deve ser desnecessariamente prejudicado por elas.
    • Legitima para os utilizadores de bicicleta esta prática disseminada entre todos os condutores de veículos de duas rodas.

 

bicicletas na bike box

Foto: Manuel Costa Henriques, durante a Massa Crítica de Março 2017

 


Vou de carro ou de mota: o que esperar e o que fazer numa destas Zonas Avançadas para Bicicletas?

 

  • Se apanhar o sinal vermelho, páre sempre ANTES da linha de paragem (agora recuada face ao normal).
  • Se apanhar o sinal amarelo, prossiga só se não conseguir parar em segurança ANTES da linha de paragem (agora recuada face ao normal). Atenção ao excesso de velocidade.
  • Com trânsito congestionado aja normalmente como em passadeiras e cruzamentos. Garanta que não avança (mesmo com o sinal verde) se não tiver já espaço para parar, se necessário, depois da ZAB (e da passadeira!).

 

zonas avançadas para bicicletas

Foto: Luís Paquete
Não faça isto, vai ficar mal visto e com razão.

  • Se parou parcial ou totalmente numa ZAB, recue para a posição correcta se não tiver veículos atrás de si.
  • Ao cair o sinal verde, confirme que não há nenhuma bicicleta a aproximar-se pela sua direita ou esquerda e prestes a colocar-se à sua frente. O condutor pode não se ter apercebido da iminente mudança de sinal) na ZAB (ou fora da ZAB, de resto!).
  • Se vai de mota: lembre-se que uma das funções da Zonas Avançadas para Bicicletas é resguardar os utilizadores de bicicleta da poluição automóvel. Se puser lá a sua mota só “porque cabe” está a anular esse efeito. Vai ficar mal visto e com razão… Nunca se coloque à frente ou ao lado dos utilizadores de bicicleta, mantenha-se afastado atrás – terá tempo para os ultrapassar depois.
  • Cuidado com as travagens, e cuidado com o excesso de velocidade com ciclistas à frente. Há relatos de perda de aderência do piso com a tinta que está a ser usada.

 

 

Vou de bicicleta: o que esperar, o que fazer numa destas Zonas Avançadas para Bicicletas?

 

  • Depende muito de uma série de circunstâncias, e do condutor de bicicleta em causa e da sua própria análise de risco. Este diagrama de fluxo ilustra sucintamente algumas variáveis a analisar:

 

zonas avançadas para bicicletas

Diagrama adaptado de um do blog The Mind of a Helmet Camera Cyclist

  • Cuidado com o momento em que chega à ZAB e com os movimentos dentro da mesma! Evite usar a ZAB como se fosse uma ciclovia para cruzar vias de trânsito enquanto o sinal está vermelho.

 

zonas avançadas para bicicletas

Imagem: bikexprt

Não importa se o condutor da bicicleta vindo pela direita (a) está a usar uma ciclovia existente ou não. O momento em que se atravessar à frente do primeiro automóvel (b) é de risco se ocorrer quando o sinal fica verde – o seu condutor não estará à espera.

Da mesma forma, se continuar e se atravessar na via a seguir corre o risco de ser abalroado se ficou verde nesse momento. O condutor que lá esteja ou aproxime não estará à espera dessa manobra, e o automóvel na via ao lado pode ocultar a sua presença e os seus movimentos até ao último instante.

 

  • NUNCA SE COLOQUE AO LADO OU IMEDIATAMENTE À FRENTE DE UM VEÍCULO PESADO, mesmo que este esteja parado, e mesmo que haja uma ciclovia ao lado e/ou uma Zona Avançada para Bicicletas / bike box à frente! Arrisca ser abalroado quando o condutor retomar a marcha! Lembre-se: garanta sempre que é visto por quem interessa.

 

 


Qual o enquadramento legal das Zonas Avançadas para Bicicletas?

 

Após as grandes alterações de 2013 ao Código da Estrada no que aos velocípedes diz respeito, a consequente revisão e alteração ao Regulamento de Sinalização do Trânsito (RST) está ainda por anunciar, o que causa alguns constrangimentos à inovação, e à evolução da sociedade (da qual as alterações de 2013 foram um reflexo). Contudo, ficamos satisfeitos de ver que isso não está a impedir a CML de avançar e de experimentar novos (cá) conceitos com o intuito de melhorar a cidade.

Esperemos que o governo termine este trabalho de revisão legislativa quanto antes, para que a lei possa acompanhar de forma clara e inequívoca as práticas vigentes seguras.

 

Fazendo a revisão de uns conceitos básicos do CE & RST:

 

Artigo 61º – Marcas transversais
As marcas transversais, apostas no sentido da largura das faixas de rodagem e que podem ser completadas por símbolos ou inscrições, são as seguintes:

M8 e M8alinha de paragem e linha de paragem «STOP»: consiste numa linha transversal contínua e indica o local de paragem obrigatória, imposta por outro meio de sinalização; esta linha pode ser reforçada pela inscrição «STOP» no pavimento quando a paragem seja imposta por sinalização vertical;

M11 e M11a — passagem para peões: é constituída por barras longitudinais paralelas ao eixo da via, alternadas por intervalos regulares, ou por duas linhas transversais contínuas e indica o local por onde os peões devem efectuar o atravessamento da faixa de rodagem; nos locais onde o atravessamento da faixa de rodagem por peões não esteja regulado por sinalização luminosa, deve utilizar-se a marca M11.

 

 

Artigo 65º – Sanções
Quem infringir as prescrições impostas pelas marcas rodoviárias é sancionado:
a) Com coima de 10 000$ [50 €] a 50 000$ [250 €], quando se trate das marcas […], M8 e M8a; [nota: coima reduzida para metade quando se trata do condutor de um velocípede, segundo o Art. 96º]

c) Com coima de 1000$ [5 €] a 5000$ [25 €], quando se trate das marcas M11 e M11a.

Ou seja, a linha de paragem associada ao semáforo (M8) continua a ser apenas uma, embora recuada, e deverá ser respeitada por todos os veículos motorizados. A lei mantém-se e é clara. Noutros países com legislação harmonizada são 2 linhas, a normal e uma avançada para determinadas classes de veículos – motas, ou bicicletas ou transportes públicos.

Os condutores de bicicleta poderão efectivamente ser multados por usar as Zonas Avançadas para Bicicletas, se encontrarem algum agente hiper-zeloso. Contudo, a iniciativa da autarquia de avançar com as ZAB torna esse cenário menos provável. Não há problemas intrínsecos de segurança causados por os condutores de bicicleta ultrapassarem a linha de paragem normal e ocuparem a bike box antes da marca da passadeira de peões enquanto esperam pelo verde (mas atenção às advertências explicitadas acima!).

 

zonas avançadas para bicicletas

Foto: Urbactiv

 

No Funchal lidaram com o atraso legislativo criando uma solução mais elaborada de bike box. 🙂

Já referi que é mesmo urgente que o governo avance de uma vez com a revisão do RST?…

 


 

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zonas avançadas para bicicletas

Foto: Urbactiv

Os 10 mandamentos sociais da estrada (e não só)

Há uns tempos, enquanto preparava mais uma palestra sobre este tema da condução de bicicleta, ocorreu-me que as “4 regras de uma condução segura” não eram suficientes. Para compreender, discutir e orientar o nosso comportamento na estrada, precisamos de perceber, e definir, o conjunto de VALORES que orientam a nossa interacção com os outros utentes da via pública.

Valores são restrições múltiplas, heterárquicas, dinâmicas e legitimadoras sobre acções.

Encontrei esta definição aqui, e achei-a bastante clara.

As leis do Código da Estrada derivam, tendencialmente, de uma combinação de princípios técnicos, científicos, de segurança, ou seja, com vista a evitar colisões, e de valores sociais cuja matriz se pode encontrar na Constituição da República Portuguesa, e na Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão.

Estes são os 10 MANDAMENTOS SOCIAIS vigentes na nossa sociedade no geral, e que se aplicam igualmente nas interações no trânsito:

  1. o primeiro a chegar é o primeiro a usar
  2. a minha segurança é tão importante quanto a tua
  3. a minha conveniência é tão importante quanto a tua
  4. a minha segurança é mais importante do que a tua conveniência
  5. a tua segurança é mais importante do que a minha conveniência
  6. só eu decido se sacrifico a minha segurança pela minha conveniência
  7. só eu decido se sacrifico a minha conveniência pela tua
  8. podes esperar ou pedir que eu aumente a tua conveniência quando tal não reduza, de forma relevante, a minha – mas não mo podes exigir
  9. só os tribunais têm legitimidade para julgar e condenar pessoas, aos cidadãos é permitida apenas a auto-defesa
  10. o mais forte* é responsável pela segurança do mais fraco

* “forte” aqui significa aquele que detém o objecto ou o poder potencialmente mais letal, e “fraco” aquele que está [mais] exposto e vulnerável a esse perigo

Os conflitos / hostilidades do quotidiano surgem quando alguém desrespeita algum destes valores, de forma consciente ou inconsciente.

Compreender o significado e a aplicação destes valores ao contexto rodoviário é fundamental para 1) sermos melhores condutores e 2) lidarmos melhor com maus condutores.

Do respeito e da lei – o caso dos pelotões

Aqui há dias apareceu-me alguém a partilhar este vídeo num grupo no Facebook:

video

No momento em que escrevo, este vídeo já foi partilhado mais de 700 vezes, isto em apenas 4 dias. Em muitas dessas partilhas as pessoas adicionaram comentários de indignação dirigidos ora ao condutor da carrinha ora aos condutores das bicicletas.

Que tal jogar ao jogo “descobre os erros”? 🙂

Atenção que ‘erro’ e ‘ilegalidade’ não são necessariamente sinónimos. Há erros ilegais, há erros legais, e há até não-erros ilegais…

O condutor da carrinha branca

Cometeu vários erros, todos ilegais, souberam identificá-los? São eles:

  • Efectuou uma ultrapassagem perigosa colocando em risco dezenas de utilizadores vulneráveis – infracção ao Art. 11.º n.º 3, coima de € 60 a € 300.
  • Efectuou a ultrapassagem de forma a daí ter resultado perigo e embaraço para o trânsito – infracção ao Art. 35.º, coima de € 120 a € 600.
  • Iniciou ultrapassagem de um conjunto de veículos sem ter certeza de que a poderia realizar sem perigo de colidir com um veículo que surgisse em sentido contrário (lomba + curva sem visibilidade + impossibilidade de retomar a direita sem perigo para quem lá transitava) – infracção ao Art. 38.º n.º 1, coima de € 120 a € 600
  • Ultrapassou um conjunto de velocípedes sem manter a distância lateral mínima de 1.5 m – infracção ao Art. 38.º n.º 2 alínea e), coima de € 120 a € 600. [E no final já nem sequer estava a respeitar a obrigatoriedade de ocupar a via adjacente, dado haver um carro em sentido contrário…]
  • Efectuou uma ultrapassagem triplamente proibida: numa lomba, numa curva de visibilidade reduzida, onde a largura da faixa de rodagem não era suficiente – infracção ao Art. 41.º, coima de € 120 a € 600.
  • Pisou e transpôs uma linha contínua – infracção ao Art. 35.º do RST, coima de 10 000$ a 50 000$.

De notar que o Código da Estrada não abre excepções para estas infracções, ou seja, a legislação não considera a ultrapassagem ou a circulação rodoviária acima de determinada velocidade, um direito inalienável dos condutores, nem um direito mais importante do que a segurança de todos os utentes das vias.

O condutor da carrinha não tinha mais legitimidade para fazer aquela ultrapassagem ilegal por ser um grupo de bicicletas do que se fosse um grupo de automóveis, pelo contrário, até, pois o CE agora reconhece mais claramente que peões e condutores de velocípedes estão mais expostos às consequências dos erros dos condutores de veículos automóveis do que os condutores e passageiros destes, exigindo por isso um maior nível de cuidado e responsabilidade da parte de quem opera estes veículos potencialmente perigosos ao pé de tais utentes [mais] vulneráveis.

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E para quem traz tópicos como impostos, seguros e matrículas ao barulho para esta situação, importa compreender que nenhuma dessas coisas tornaria esta ultrapassagem menos ilegal e menos perigosa.

Os condutores das bicicletas

Cometeram um erro ilegal:

  • Circularam sem manter a distância de segurança adequada face aos ciclistas da frente – infracção ao Art. 18.º n.º 1, coima de € 30 a € 150.

De resto, e na situação concreta do vídeo, é basicamente isto.

Agora, vamos assumir que antes e depois do local mostrado no vídeo, a estrada continua a ser algo sinuosa e a não permitir a ultrapassagem segura de um pelotão deste tamanho, e o comportamento dos ciclistas se mantém.

Os eventuais erros legais (‘erros’ porque são más práticas de condução que geram situações de risco, mas ‘legais’ porque não são proibidos pelo CE) seriam:

  • Não se organizarem em 2 ou 3 sub-grupos com um espaçamento constante entre eles, e suficiente para acomodar um automóvel de cada vez, e assim criar condições para facilitar a ultrapassagem, progressiva, do grupo, em segurança.

Os eventuais erros ilegais seriam:

  • Não desfazerem os pares para o ciclista mais à esquerda se poder chegar mais para a direita em segurança, para facilitarem a ultrapassagem quando há efectivamente condições de segurança para tais ultrapassagens (a lei obriga aos condutores de automóveis a usar a via adjacente e a manter pelo menos 1.5 m de distância lateral do ciclista durante a ultrapassagem) – infracção ao Art. 39.º n.º 1, coima de € 60 a € 300, e ao Art. 90.º n.º 2, coima de € 30 a € 150.

Finalmente, o contraponto a alguns comentários e argumentos típicos das pessoas que partilharam este vídeo:

  • tinham que ir em fila indiana – 1) o CE permite a circulação paralelamente, na mesma via, 2) se o pelotão fosse em fila indiana o congestionamento teria o dobro ou o triplo do comprimento!
Fila indiana versus a par

Fonte: Bicla no Porto

  • tinham que ir encostados à direita – tal não é boa ideia e o CE não obriga a fazê-lo, e  ultrapassagem não seria mais fácil dado que é proibido ultrapassar uma bicicleta usando total ou parcialmente a via em que ela circula!
Ultrapassar ciclistas

Fonte: Coimbra’ Pedal (derivado de Cycling Savvy)

  • tinham que manter 50 m de distância uns dos outros para facilitar as ultrapassagens porque são veículos em marcha lenta – o CE exclui os velocípedes dessa obrigatoriedade porque, presume-se, os velocípedes permitem aos condutores atrás manterem a visibilidade quase total da estrada à sua frente, e frequentemente mantêm velocidades bastante baixas (mais não seja em subidas), viabilizando mais facilmente a sua ultrapassagem segura. Tal excepção visará também acautelar a circulação em grupo, comum no caso dos ciclistas.
  • tinham que ter escolta policial, com batedores – tal só é obrigatório para actividades desportivas que afectem o trânsito normal, o que não é o caso (pelo vídeo), ou seja, neste caso aquilo é trânsito e é ainda assim “normal”, a escolta policial não faria necessariamente as ultrapassagens possíveis, simplesmente dissuadiria os outros condutores de fazerem asneiras como o da carrinha branca.
  • «aqueles ciclistas acham-se donos da estrada toda e aproveitam para se mostrarem “importantes”» – são tão donos quanto os outros e têm direito a usá-la da mesma forma, salvaguardando a sua segurança.
  • um dos meus favoritos: «Grandes amontoados de ciclistas que se acham no direito de ocupar toda a via e obrigar os outros a circularem atrás deles durante kilometros!!!» – não é isto que os condutores de automóveis fazem sem que ninguém pestaneje, apite ou resolva ultrapassar à força?… Se não forem 50 bicicletas mas sim 50 automóveis, 50 scooters, 50 quadriciclos / microcarros (ou papa-reformas, como lhes chamam), 50 camiões, tractores, carroças, etc, não seria muito pior?…

«Mas o condutor da carrinha só fez aquilo porque os condutores das bicicletas não lhe deixaram alternativa!»

Será? Vamos analisar então as alternativas aos dispôr do condutor da carrinha, na situação registada no vídeo:

  1. Manter-se atrás do grupo e aguardar uma oportunidade segura para ultrapassar (podia ser dali a 30 segundos ou 30 minutos, não se sabe).
  2. Arriscar a sua vida, a dos seus passageiros, as dos condutores das bicicletas, e a dos condutores e passageiros dos veículos a circular em sentido contrário, fazendo uma ultrapassagem claramente perigosa(e ilegal).

Claro que o condutor da carrinha tinha alternativa. Simplesmente achou que era aceitável pôr terceiros em risco para ele próprio não perder tempo num congestionamento. Na sua cabeça, justificou isto com a ideia de que o seu tempo era mais importante do que o dos ciclistas, ou de que o seu uso da estrada era mais justificado, importante, urgente! que o dos ciclistas (o típico “eu estou a trabalhar, eles estão a passear!“), ou a de que a culpa era dos ciclistas por não estarem a deixá-lo passar, e tornou isso mais relevante do que a segurança de todas aquelas pessoas, uma atitude realmente lamentável…

Mesmo que os condutores das bicicletas estivessem a fazer tudo mal, em termos de condução e em termos de Código da Estrada (que não estavam, mas vamos assumir), o condutor da carrinha branca não tinha o direito de fazer igual ou pior lá por causa disso. Tinha o dever e a responsabilidade de não pôr aquelas pessoas em risco, por muito que elas e a situação o irritassem. É isso que diz claramente o Código da Estrada de 2014, e é isso que se espera que qualquer condutor legalmente habilitado para conduzir uma arma em potência seja sábio o suficiente para compreender e respeitar. Não nos cabe a nós sermos juízes e carrascos em julgamentos sumários, dos nossos concidadãos na rua…